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Para Doutor em Sociologia, Igreja deve atuar na Política "sempre de modo indireto"

Doutor em Sociologia, Pedro Ribeiro é professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Em entrevista ao também sociólogo Luiz Eduardo de Souza Pinto, Ribeiro responde a 12 perguntas, que pautam desde a influência religiosa na contemporaneidade, passando pela atuação da Igreja no processo político, até as múltiplas formações familiares verificadas na atual cultura do mundo dito pós-moderno. Leia abaixo a íntegra da entrevista, feita por e-mail.

1 - Professor Pedro Ribeiro, sendo sociólogo que dedica seus estudos a assuntos religiosos, como o senhor avalia a influência da religião no dia-a-dia da sociedade contemporânea?

“É difícil avaliar a influência da religião na sociedade, porque isso não depende do número de seus adeptos e sim da capacidade de a religião ser uma referência ética para essa sociedade: se ela define ou não os valores que norteiam os comportamentos. Ora, a sociedade contemporânea recorre cada vez menos à religião para definir o bem e o mal. Por isso considero que a influência da religião tem diminuído, embora ela ainda tenha muita importância para a vida social.”

2 - A sociedade atual, denominada por alguns sociólogos e filósofos de pós-moderna, apresenta, de fato, uma tendência à secularização?

“Isso está fora de dúvida, porque a secularização é justamente a perda de controle da religião (ou das igrejas) sobre as instituições sociais. Mas não se deve confundir a secularização com o ‘desencantamento’ do mundo, que é um processo tipicamente moderno de crescente racionalização. Assiste-se hoje a um processo de ‘reencantamento’ do mundo - há uma profusão de crenças e rituais religiosos - sem que a religião ou as igrejas retomem o poder de controlar instituições sociais como o estado, a economia de mercado e as instituições de pesquisa científica, por exemplo.”

3 - A falta de referências sólidas, de padrões éticos e morais afeta as estruturais sociais e religiosas?

“Eu não diria a ‘falta’ mas a substituição de padrões éticos e morais, que hoje são cada vez menos oferecidos pela religião e mais pelos ‘aparelhos’ de comunicação e informação, como a TV, o rádio, as revistas e a internet. Veja como as revistas, principalmente aquelas voltadas para um público específico (p. ex. adolescentes, mulheres, homens) são referência sobre o que é socialmente aceito como certo ou errado. Cada vez menos se consultam agentes religiosos (padre, pastor, mãe-de-santo, guia espiritual) para se saber o que se deve ou não fazer para ser feliz.”

4 - Para o senhor, qual é o maior fundamento do cristianismo?

“A fé na ressurreição. Se Jesus ressuscitou, então a vida acará por vencer a morte. Por isso tenho fé que não estamos condenados a viver num mundo de opressão e violência, e que ‘outro mundo é possível’.”

5 - Vivemos hoje em uma sociedade global na qual diversos povos com diversos modos e estilos de vida se interagem em um mesmo espaço geográfico. Nesta perspectiva, o senhor acredita que o diálogo inter-religioso passa a ser tão importante quanto a tolerância religiosa?

“A tolerância religiosa deve ser o primeiro passo em direção a um verdadeiro diálogo inter-religioso. As religiões são como linguagens que falam do sentido do mundo e cada uma delas expressa apenas parcialmente o mistério da vida. A paz no planeta Terra terá muito a ganhar se as religiões conseguirem colaborar entre si para que cada uma desenvolva o que tem de melhor.”

6 - Professor, na era de acentuado desenvolvimento tecnológico e científico, é possível entrelaçar ciência e religiosidade?

“Entrelaçar, não porque a ciência é uma linguagem e a religião é outra. Uma discorre sobre o encadeamento lógico da realidade, a outra fala do seu sentido: não busca uma relação de tipo causa-efeito, mas a significação profunda de tudo que existe. Outra coisa, que é perfeitamente possível e desejável, é que essas duas linguagens se articulem entre si e com as outras linguagens: um cientista pode desenvolver sua religiosidade, sua musicalidade, e seu pendor para as artes e mesmo sabendo que o sol não gira em torno da terra, falar ‘hoje o nascer do sol foi muito bonito’. Ou seja, podemos e devemos falar as várias linguagens que estão a nosso dispor: da ciência, da religião, da filosofia, da música, da poesia, da dança... e a do senso-comum que nos permite viver socialmente o cotidiano.”

7 - A violência, a corrupção e o desrespeito à dignidade humana que marcam nossa sociedade são problemas sociais que poderiam ser reduzidos se mais pessoas se orientassem por princípios religiosos?

“Em tese, sim: os princípios religiosos deveriam abolir a violência, a corrupção e a violação dos direitos humanos. Mas na prática não é bem assim. Não se pode esquecer que o Brasil católico conviveu tranquilamente com a escravidão de africanos e o massacre de povos indígenas, como se essas violências fossem compatíveis com o cristianismo.”

8 - Qual é o papel social da Igreja?

“A Igreja - católica ou outra - tem um papel social e político muito importante: ver as realidades terrestres como Deus as vê. Por isso, ela tem a capacidade especial de dizer o que é ou não conforme o projeto da criação. Veja agora: o mundo está entrando numa grave crise ecológica, porque nosso sistema produtivista-consumista consome muito mais do que a Terra pode oferecer. O domínio da espécie humana sobre as outras espécies vivas (domínio que significa, na prática, ou escravização das espécies úteis ou sua extinção) muitas vezes se justifica pelo argumento religioso, de que fomos os únicos seres criados por Deus à sua imagem e semelhança. Nessa visão, o problema ecológico será resolvido por Deus e por isso continuamos a produzir e consumir os bens irresponsavelmente. A Igreja precisa rever urgentemente esse tipo de visão, e mostrar que nosso lugar na criação é como parte da grande comunidade de vida, e não como se fôssemos deuses todo-poderosos.”

9 - As Comunidades Eclesiais de Base, CEBs, representam um modelo positivo para a transformação social a partir da lógica religiosa?

“Sem dúvida alguma. Elas são uma ‘nova forma de ser Igreja’, como diz um importante documento dos nossos bispos (Doc. 25 da CNBB), e já mostraram que, quando bem articuladas com as pastorais sociais, elas representam um grande impulso para a transformação social a partir dos pobres e dos pequenos, quando organizados em movimentos sociais.”

10 - As Igrejas, em especial a católica, devem atuar também no campo político? E de que forma deve ser esta atuação?

“A atuação deve ser sempre de modo indireto. Como me dizia um lavrador, ‘a igreja não faz nada: quem faz é o sindicato, a associação, o partido político, o movimento social; a igreja só nos dá a força, luz e coragem para atuar naqueles instrumentos de ação. A força que vem da comunidade, a luz que vem da Palavra de Deus, e a coragem que vem da oração’. Até hoje não encontrei melhor definição...”.

11 - O tema da Campanha da Fraternidade deste ano é “Economia e Vida”, cujo lema é “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. De certa forma, pode-se dizer que a sociedade está sacralizando o consumo e ao mesmo tempo colocando de lado questões religiosas que pregam menos apego à matéria?

“A sociedade sacraliza não só o consumo, mas também a produção. Nosso sistema econômico precisa produzir sem cessar, para manter-se em funcionamento. E isso está esgotando os recursos do planeta e ameaçando a vida de muitas espécies, inclusive a nossa. Nossa mensagem deve ser a mesma de Jesus: bem-aventurados os pobres! Temos que aprender a ser feliz sem sermos ricos. Os pobres são felizes - disse Jesus - porque praticam a partilha e não a acumulação de bens. Ou seja, não se trata de menos apego aos bens materiais, mas sim de dar tanto valor a eles, que os partilhamos com todas as pessoas que deles necessitarem. O que não podemos é acumular bens. Nisso os evangelhos ensinam com uma clareza luminosa.”

12 - Há sociólogos e religiosos que afirmam que é na família que se principia a sociedade. Atualmente, uma das preocupações da Igreja Católica é a desintegração desta instituição. Pode-se afirmar que esta desintegração pode representar uma ameaça à sociedade como um todo?

“A questão é muito complexa, e não vou entrar nela. Quero apenas dizer que ao mesmo tempo em que uma forma de família se desintegra, outras formas vão se integrando e se institucionalizando. A sociedade muda e a instituição familiar também. Agora, se isso é para melhor ou para pior, a sociologia não sabe dizer.”

Brasao



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