“Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. O trecho extraído do livro de Mateus é o lema da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) deste ano. O dinheiro é objeto sacralizado da sociedade consumista, e o trabalho, elemento fundamental de nossa sociedade, é o mecanismo utilizado para se conquistar os recursos financeiros tão almejados pelos seres humanos das mais diferentes raças, credos e nacionalidades. O trabalho deixou de ser uma ação capaz de transformar a natureza para garantir o sustento e a existência. É agora o meio de se conseguir status, poder e capital.
As regras que definem a sociedade criam hierarquias e a importância da divisão social do trabalho é percebida por pensadores clássicos, como Marx, Durkheim e Weber, e ainda pode-se incluir Norbert Elias ou Simmel. Para Marx, o motor da história é a luta de classes decorrente do antagonismo existente entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores que vendem sua força de trabalho, gerando uma ação capitalista que acaba por explorá-los. A superação destas condições, na visão marxista, seria observada no desenvolvimento da história.
Adam Smith, em sua célebre obra "A Riqueza das Nações", já apontava que o desenvolvimento do conhecimento e a capacidade do ser humano de criar novas engenhosidades trariam como consequências um aprofundamento da divisão do trabalho. Tudo isto pode nos levar a crer que esta divisão de especialidades gera apenas divisões, seja de classes, categorias ou realidades sociais. Por outro lado, na visão destes pensadores, o trabalho também apresenta um caráter integrador e gerador da coesão social.
A relação de interesses e interdependência das sociedades mais complexas gera unidade à medida em que cada indivíduo não produz tudo aquilo que necessita para sua sobrevivência e, portanto, tem-se a necessidade de se estabelecer uma conexão comercial com aquele ou aqueles que são possuidores dos objetos que não se conseguem produzir. Desta maneira, a divisão do trabalho se concretiza em uma sociedade formada por trabalhadores interdependentes e com múltiplas especialidades, mas há interação, através do mercado.
A grande questão é que, com a visão cada vez mais capitalista, as pessoas buscam não apenas o básico para a manutenção da vida. Cada ser humano, proprietário ou não dos meios de produção, é levado a acreditar que a obtenção de recursos financeiros lhe dará muito mais do que qualidade de vida. Neste prisma, o trabalho não é somente fonte de manutenção pessoal; é símbolo de status e da busca constante pelo acúmulo de capital.
O Papa Bento XVI, em sua primeira Carta Encíclica, "Deus Caritas Est", considera que a industrialização crescente, que se observa desde a Revolução Industrial, alterou radicalmente a composição da sociedade, colocando a questão capital/trabalho como central, o que corrobora com as análises dos pensadores clássicos citados. Porém, o Sumo Pontífice vai além ao tratar da caridade, elemento raramente discutido por pensadores clássicos ou até mesmo contemporâneos. A caridade propõe a ruptura com a razão meramente econômica, cria a solidariedade radicalmente fraterna e não puramente mecânica ou orgânica fruto da organização social e da divisão do trabalho conforme observado por Durkheim.
O apóstolo Paulo, em sua carta aos Coríntios, cita que, mesmo se um indivíduo penetrasse todos os mistérios e tivesse perfeita ciência de todas as coisas, se não tivesse caridade nada seria. E para combater o utilitarismo capitalista que transforma tudo em mercadoria, São Paulo completa: “ainda que se distribua todos os bens para alimentar os pobres se não tiver caridade, não há valor”.
Fator negligenciado pelos modernos e clássicos pensadores, a caridade é paciente, é branda e não é invejosa nem temerária, não cuida dos seus interesses, não se rejubila com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Talvez cientistas e analistas do século XXI levem em consideração elementos até agora pouco discutidos academicamente, mas amplamente abordados pelas religiões. Muitos são céticos. Para eles, vale lembrar: a caridade tudo suporta, tudo espera.
É bacharel em Administração e Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Pós-graduado em Pedagogia Empresarial, Sociologia e Política. Foi um dos produtores do "Revista Católica", primeiro programa de televisão da Arquidiocese de Montes Claros, veiculado na TV Geraes (pertencente à Fundação Genival Tourinho, de Montes Claros) de 25 de abril de 2005 a 25 de janeiro de 2006. Foi também um dos mentores do jornal "Clarão do Norte", informativo impresso arquidiocesano lançado em Missa Solene na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida de MOC em 08 de dezembro de 2007, além de já ter participado como missionário da Pastoral da Comunicação Arquidiocesana com colaborações para o site desta Igreja Particular e para o jornal "Far-ELO de Vida", informativo impresso arquidiocesano do Governo de Dom Geraldo Majela de Castro e que circulou de 1996 a 2006.
